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CARTA ABERTA À REVISTA NOVA ESCOLA

Triste que uma revista que se chama NOVA ESCOLA, revista que espontaneamente assino, publica o texto “Um bom professor não usa laudo como desculpa”, na edição de setembro de 2017. O texto defende que "já que determinado aluno tem um transtorno médico [laudo], muitos educadores se sentem confortáveis em diminuir as expectativas sobre. Isso precisa acabar". Para piorar um pouco mais, assina o texto o Sr. Leandro Beguoci, seu diretor editorial. A coluna é direcionada para o “caro educador” (não há trocadilho aí, assim espero). Não posso ficar calado. O autor adverte para o educador que ora está funcionalizado como leitor: “por que você abdica do seu poder de educar”? Poder. O Sr. Beguoci acredita que educar pressupõe um poder. Por admitir uma relação de poder aceita e naturaliza uma assimetria de inteligências, de capacidades, de possibilidades. Discutiremos isso melhor a frente. Ele continua dizendo que pelo excesso de laudos, “a linguagem médica capturou a pedagógica”. Revel…

Theodor Adorno

Filósofo da Escola de Frankfurt, Adorno escreveu com Horkheimer, a Dialética do Esclarecimento. Em determinado momento, critica com vigor o cinema americano como "filtro da indústria cultural". Para além disso, escreve: [o filme [de Hollywood] não deixa mais à fantasia e ao pensamento dos espectadores nenhuma dimensão na qual eles possam (...) divagar no quadro da obra fílmica (...) e é assim precisamente que o filme adestra o espectador entregue a ele para se identificar imediatamente com a realidade.] Exatamente como em sala de aula. Por um outro lugar pedagógico.

Sobre a pluralidade de ensinar

Hoje, o Jornal O Globo traz matéria sobre educação domiciliar, suas razões e suas supostas inconsistências. A tese dos contrários é a mesma: a interação com os "pares", ou seja, com outras crianças. Seria essa a única "verdade" que se esconde por trás da resistência? Penso que mais uma vez, o Estado e os pensadores educacionais presumem certas distâncias e simplifica excessivamente o debate. Posicionados por um argumento pronto e diagnóstico descuidam de um olhar mais amplo e atual. A sociedade em rede que testemunhamos já não se suporta em argumentos risíveis e sem suas contradições. Aliás, os grilhões pedagógicos no Brasil tem mantido e piorado nossos indicadores a passos largos. O Estado não avança nem em propostas, muito menos em soluções. Ao contrário, recrudesce a discussão dentro de gabinetes e não amplifica as vozes dissonantes: é antidemocrático. O Ministério Público parece mais adversário do que defensor. E as histórias de incompreensão de crianças e ado…

O mestre emancipador

Jacotot é uma voz dissonante em um mundo iluminista, em uma escola que viria a enviesar com a política napoleônica de acomodar aristocracia, burguesia e a antes excluída igreja. “Dissonância inaudita” em uma pedagogia já revestida de acrílico, tampada, evitando a realidade do mundo-das-coisas. Jacotot defende a tese de que a instrução é o instrumento da eternização da desigualdade. Essa escola instrutiva fomenta no aluno sem classe em uma auto-eliminação da vontade de um outro projeto de vida. A igualdade da pronúncia do saber para todos os estudantes é antes de mais nada a garantia de uma desigualdade entre aqueles a quem se destina. A educação cumpre com vigor o status de fratura social. O governo? O governo é a autoridade para os melhores da classe. A escola confirma a disparidade sobre a qual deveria agir e limar. “A igualdade é fundamental e ausente”. Jacotot, por Rancière, questiona por que o livro deve ser explicado. Por que não se basta? Por que necessita de um interlocutor, q…

Sobre a aula tradicional

Funciona assim. O professor "deu" aula quando efetivamente falou a respeito do que tinha programado em 45 ou 50 minutos do tempo. O aluno reconhece que "teve" aula porque esteve por 45 ou 50 minutos em sala enquanto o professor falou a respeito do assunto. A escola paga o salário para o professor porque ele esteve em sala e falou por 45 ou 50 minutos. A secretaria de educação admite que houve um dia letivo porque o total de professores falou por pelo menos 4 horas em um dia. Os pais se convencem que houve aula pelo relato do filho de que o professor falou pelo número de horas estipulado no contrato que assinou. Em suma, o ensino tradicional virou um sistema cujo parâmetro pedagógico final é o tempo do relógio,
o único que é capaz de confirmar que houve educação, que a lei se fez cumprida. E, no dia seguinte, todos voltam convencidos que está tudo bem.

Um novo lugar pedagógico

Para entender a mudança Segue abaixo uma proposta clara de profunda alteração educacional. Introduzo três conceitos "novos": a) ELA - Espaços para Livre Aprendizagem - com protagonismo do aluno, com centro nevrálgico na perspectiva fenomenológica-existencialista e na ACP (abordagem centrada na pessoa), com apoio de plataformas digitais, gestão democrática, definição de rumos institucionais com base em debates amplos de livre participação, espaços para livre intelectualização e livre desenvolvimento de projetos (desde que apresentem um desejo de objetividade e desejo de solidariedade, defesa de ideias, acompanhamento pedagógico); avaliação qualitativa, apoiada em relatos; personalização do ensino; interação com a natureza, com a cidade e com a sociedade b) Escola de transição - escola tradicional que permite reorganização de espaços, regras e currículo; transformação dos professores em mestres-livres/orientadores/tutores/membros de bancas de pesquisa; uso do ensino híbrido p…

Há argumentos favoráveis à escola: quais são?

Quando me dizem que não estou certo, que a escola é uma instituição necessária, que ela não pode acabar, eu não deixo de pensar e oferecer a mim mesmo a hipótese de que eu possa estar errado e que pode ser possível reverter o que temos. Os argumentos principais e favoráveis à escola são três. O primeiro é de que a instituição escola é a garantia de um edifício de resistência para as classes menos favorecidas, uma garantia de que o Estado gaste recursos em uma instituição gratuita que atenda à comunidade, sem que essa comunidade necessite negociar por isso. O segundo argumento é o de que não há outra forma de dar escala para o conhecimento, popularizar o saber, permitir progressão social e econômica das classes hoje desafavorecidas. O terceiro argumento é o de que os indicadores sociais são melhores conforme a escolarização, como: menor número de atos infracionais, menor número de gravidezes na adolescência, entre outros. Tratemos os desejos de escola acima com fatos concretos. Primei…

EL VIÑEDO DEL TEXTO, IVAN ILLICH

Hugo experimenta a transição entre a leitura monástica e leitura escolástica. Assiste assim, uma ruptura de formatos acelerada pela forma tecnológica do alfabeto. Escrever sob domínio dos símbolos que chamam letras promove possibilidades na escrita que remetem àquilo que é escrito. Agora, os livros continham não somente os ditos clássicos mas se sujeitava também às opiniões. Entre um versículo e outro, cabia ali trechos interpretativos, trechos derivados de uma fonte inexistente até então: o cogito. A tese é a de que o comentário visa a facilitação da compreensão, oferece a velocidade e oferece o complemento oculto ou ininteligível, ou no mínimo, uma outra forma de captação. Na visão, de um semi-autor. Inexistente até então. Illich reconhece assim que “o registro do discurso” cede lugar ao “registro do pensamento”. Entre novas possibilidades de escrever e deixar escrito em novos materiais, a tecnologia que resulta no escrito se torna o axioma do conhecimento. A força da palavra escrita…