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Sobre as escolas, Freud e o conceito de massa artificial

A escola é a massa que Freud chama de massa artificial. Há uma força externa "protegendo-a" da dissolução. As pessoas (leiam alunos) não têm o direito de sair da "turma" porque serão punidos. Nesse sistema coercitivo, há uma miragem de chefe, de direção, de organizador (o professor?). Tudo depende dessa ilusão, que os organiza (alunos) supostamente na igualdade. Se essa "verdade" for abolida, toda a singela organização se evapora. Tudo perde o sentido. O aluno está condenado. A ficção de que todos são iguais perante à escola e ao professor, é estruturante frente ao conceito de manutenção do grupo. Assim, o aluno é massa, e massa artificial. Às vezes, segundo Freud, a ficção estruturante se modifica em tese, abolindo o indivíduo-condutor. Uma mensagem, um sistema onipresente, substitui o condutor da massa. O agregador da massa (o professor ou a mensagem) se constitui pelo medo de que a desobediência a si, signifique a desagregação e o não-pertencimento do …

A gaiola montessoriana

Muitos pais acham que o que defendo é próximo do método montessoriano. Não tomo isso como uma coisa ruim, mas não há tanta aproximação entre os dois. Maria Montessori viveu do final do século XIX até meados do século XX (1952). Italiana, médica, psiquiatra. Foi com as crianças filhas dos internos do manicômio, na periferia de Roma, que começou seus trabalhos. O trabalho pedagógico que fez com crianças especiais rendeu-lhes um desenvolvimento acima do nível de crianças normais. Científica, criou seu método que se espalhou pelo mundo, inclusive por ação direta dela, que viajou muito. Afinal, o método montessoriano é bom?
Apesar de resultados individuais muito bons, receio que minha resposta é NÃO. VOU JUSTIFICAR meu ponto de vista. O método produz um indivíduo produtivo, individualista e adaptativo. Isso se mostra muito funcional mas muito fisiológico no mundo atual. O método, no entanto, não oferece o que, no meio entendimento é crucial: o sujeito crítico. O que o método faz é ordenar …

Liberdade e Hannah Arendt

O que é a liberdade?
Parece que se trata de uma discussão póstuma. Insuflada de uma gama de variáveis, parece que a relativização de qualquer uma delas, sugere a impossibilidade de uma redução conceitual. Parece que somos livres por definição, definição essa que se mostra escorregadia, socraticamente insustentável. Sem a previsibilidade de todas as suas causas, não se assegura liberdade. Poderíamos tenta-la reduzir aos limites do intrapsíquico mas aí mergulharíamos em duas questões maiores. A primeira é de que a liberdade nunca seria “vista”, “exibida”, haja vista que não a teríamos no mundo das coisas, em território acusável pelo outro. Seria, para Hannah Arendt, uma liberdade apolítica. Outra questão, é que essa liberdade é frontalmente combatida, depois da obra de Freud, com o conceito de inconsciente e suas decorrências. Retomando para o plano político, seara de apresentação em Hannah Arendt, ela convida Kant para a discussão, usufruindo dele o conceito de razão prática, sua coalizã…

feliz dia dos professores (?)

A metamorfose Tornei-me professor porque precisava de dinheiro. O mestrado na USP era uma incógnita e minha família não podia me custear, aliás minha família é que precisava ser custeada. Fui convidado por um grande amigo, um quase-irmão, para dar aulas na escola privada mais famosa de Brasília e logo perguntei quanto ganharia. Tinha então 22 anos. Fiz o teste e passei. Fui contratado. Dei muitas aulas, às vezes mais de 50 por semana. A aula era um ato motor, irreflexivo, era uma exposição calculada sob minha orientação interna, ausentando qualquer outro fator de momento, os alunos, por exemplo. Os alunos não importavam.
A aula importava. Quando a aula passou a ser um ato mecânico, sobrou tempo no meu cérebro. Foi então que comecei a observar os alunos. Eu comecei a saber seus nomes, a reparar suas identificações, se cortavam o cabelo, se estavam sorridentes ou sisudos. Passei a sorrir mais, passei a demorar mais nos sorrisos, passei a receber sorrisos. Depois, passei a ganhar abraços…

“Exigimos porque acreditamos”

“Exigimos porque acreditamos” é a propaganda de uma escola de Brasília.
Permitam-me uma livre análise. A frase da propaganda é a síntese da crise educacional, da anulação do aluno como sujeito e a revelação da escola tradicional como instituição totalizante e fascista. Quem diz a frase é a escola. Entretanto, a frase tem seu sujeito oculto e pluralizado: “exigimos”. O plural é a intencionalidade da escola de se anonimizar, de esconder o verdadeiro eu-fundador do discurso. O opressor institucionalizado despersonaliza o falante, se desidentifica, busca nessa estratégia a onipotência do discurso, naturalizar sua ideia, confundindo quem ouve.
Pior.
Sem saber exatamente quem “exigimos”, podemos interpretá-los como o corpo docente. A escola, nesse caso, inclui o professor sem a necessidade de consultá-lo, haja vista que o professor aceita passivamente o ventriloquismo com sua voz por concordar com o anunciado, por abandono de seu juízo ou por dinheiro.
Quando se diz “exigimos”, quem exige tem …

Kafka vai à escola: A metamorfose

Gregor Samsa é o aluno embrutecido. Um indivíduo que se transforma de humano em barata, subitamente, processa a fábula realista de Kafka, mas vai além. O fantástico trazido por Kafka permeia a crítica social de um tempo que pode ser ligado com o processo pedagógico: o cenário de estranhamento do aluno que revela seu papel, ou o seu não-papel. O ser baratal, coisificado, é a silhueta do aluno tradicional, o aluno escolar. A metamorfose é a revelação da ausência do sujeito. Já não era sujeito antes, a metamorfose apenas testemunha sua insignificância, prova sua renúncia de subjetividade. Resta para ele, ver sua irmã em atitude de esperança da contra-metamorfose, seu reencontro com o humano, que volte a ser caixeiro-viajante e admita para si a verdade dos outros: salvar a dívida da família, intento externo, uma vida não vivida pelo seu corpo. Esperança vã. Kafka pode ser explicado por Rancière. Quando Rancière aponta os caminhos da emancipação intelectual, quer reclamar o direito do ind…

AS MASSIFICAÇÕES CULTURAL E PEDAGÓGICA COMO CONSTRUÇÃO ESTÉTICA DO MUNDO PELA CLASSE DOMINANTE E A NEGAÇÃO DO SUJEITO: UMA BREVE ANÁLISE EM ADORNO, RANCIÈRE E NA FENOMENOLOGIA

AS MASSIFICAÇÕES CULTURAL E PEDAGÓGICA COMO CONSTRUÇÃO ESTÉTICA DO MUNDO PELA CLASSE DOMINANTE E A NEGAÇÃO DO SUJEITO: UMA BREVE ANÁLISE EM ADORNO, RANCIÈRE E NA FENOMENOLOGIA


RESUMO
A massificação cultural é um projeto equivalente ao da massificação do ensino. Em ambos os processos, o sujeito é reduzido, plasmado, silenciado, embrutecido. A armada do status quo revigora esse espírito anticriativo sob as mais diversas formas. Uma delas é com o professor explicador, ideia introduzida por Rancière, o professor que abole a distância que ele mesmo impõe quando se depara com o seu aluno. Nessa atitude de pretensa assimetria entre a sua vontade e a vontade do aluno, entre a sua inteligência e a inteligência do aluno, vassaliza o estudante, restringindo sua liberdade. Na tentativa de fazer compreender, essa intenção corrompe o movimento da razão, destrói a confiança no outro, expulsa a possibilidade de aquisição, impede a possibilidade de reorganização, oferecendo apenas a imagem técnica que é…