domingo, dezembro 04, 2016

Um dia teremos um país de verdade
Uma nação, não inventada
Uma grande diversidade de ideias respeitadas
Um sertão, um mar, uma serra, um campo
Teremos um país de certezas
Um país que revela e não ignora sua história
Teremos um Estado que representa seus nativos
Um lugar com segurança para viver e morrer
Teremos uma juventude animada, esperta , motivada
Teremos uma infância respeitada
Teremos direito à família que quisermos
Poderemos ser, mesmo distante da árvore
Toleraremos a diferença e a semelhança
Seremos aprendentes em todo nosso tempo
Duvidaremos do que sabemos e não sabemos
Viveremos em um país de verdade
Precisamos de outra educação, de outra escola
Uma nova alvorada, um lugar novo no mesmo relevo, no mesmo país
Um país de verdade
Não diga, por favor, que esse dia não chegará
Teremos o direito desse dia,
o direito de nos lembrar de um passado sombrio,
de uma época nas cavernas, vendo as sombras
e interpretando como verdade
Teremos mais que um país
Teremos um presente, um futuro e uma história
Vamos lutar cada segundo por nossas crianças e pelos nossos jovens,
não vamos desistir nunca
Uma outra juventude, uma infância verdadeira
não queremos perder nenhuma criança para a tradição covarde
nem para fome, nem para o suicídio, nem para a ignorância, nem para a miséria seja qual for
nem um espírito para as sombras
toda criança terá direito à sua história, ao seu currículo
queremos ensinar o que eles querem,
queremos as crianças como jovens, e os jovens como uma nação
Não uma nação inventada,
uma nação muito melhor que inventamos
Queremos educação de verdade
A gente não quer só comida
a gente não quer circo, tv inventada e o jornal editado
A gente quer pensar
a gente quer crianças felizes, empoderadas e livres
a gente quer crianças que brincam e falam por si mesmas
A gente quer uma democracia falante e atuante
A gente quer vida e não a escola pávida e incolossa que aí está
Queremos um gigante feito de crianças.
Ajudem a mudar o Brasil.

domingo, novembro 27, 2016

Outro dia li, sobre a crise dos 40 anos. Na reportagem, o jornalista colocava que há um relativo montante de pessoas que trocam funções a partir dessa idade, trabalhando menos, ganhando menos, todavia fazendo mais e mais apaixonadamente. No meu caso, o jornalista parece estar certo. Foi assim comigo. Passei anos da minha vida sendo torturado por uma rotina de muitas aulas por semana, repetindo assuntos de maneira similar, torneando a verdade de forma teórica e cheia de erudição. Aguentando um sistema, seus paladinos e seus seguidores revestidos de toda autocracia e remotismo, surtei. Não dava para renunciar à minha indignação: algo estava errado no Reino das Águas Claras! [1]
            Essa sensação libertadora veio com os livros. Por isso, realmente, sou um leitor contumaz. Leio simultaneamente vários livros em atitude quase maníaca. Eles me libertaram, descortinaram a razão e a emoção. Foi então que entendi: quase tudo estava errado.
            Munido de impaciência e revolta, revoltei-me primeiro tacitamente contra mim. Não conseguia mais dar as mesmas aulas de sempre. Não conseguia ensinar o que já havia ensinado. Não da mesma forma. Queria fazer alguma coisa diferente. Depois de duas graduações (bacharel e licenciado) e uma especialização na área biológica, decidi ir fazer mestrado em uma área interdisciplinar: a bioética. Receptáculo de discussões provindas da antropologia, medicina, filosofia, sociologia, direito, que se poderia esperar de mim? Um choque de ordem, uma saraivada de visões, uma compreensão de disciplinaridade reversa, diversa, inversa da realidade dos fatos. Esse curso colocou aquele demônio postado no meu outro ombro, sussurrando o outro impulso reclamado por Nietzsche. Ali, minha pedagogia nunca mais foi a mesma.
            Quando voltei para sala de aula, encontrei na minha frente a minha obra incompleta e meu desafio eterno: meus alunos. Passei a olhar para eles com olhos vermelhos, advento do ódio-fúria-tristeza. Não deles, mas do sistema.
            Quando cheguei em casa, e passei a olhar meus três filhos, senti o sofrimento de cada um deles.
            A escola brasileira está paralisada. Precisamos mudar. Não sou o primeiro, não sou o único, não serei o último. José Pacheco e a Escola da Ponte inspirou mudanças, o projeto Âncora, a pedagogia Waldorf, quero me juntar a eles. À princípio, quero um lugar para colocar minhas ideias em prática. Em segundo lugar, não quero um lugar só para minha ideia. Quero andar e quero que minha ideia não seja minha, desejo que ela seja deformada, cada vez que ela se fizer necessária. Quero que minha ideia seja provisória para aqueles que desejam mudança e que seja definitiva para os que não a desejam.
            Quando descobri essa descoberta, percebi que ali era o primeiro dia do resto da minha vida. Não podia mas voltar a viver meus vinte e poucos anos de pedagogia tradicional. Tinha de revirar os textos, anotar as experiências e me capacitar além do inatismo das ideias e do autodidatismo em ebulição. Fiz das economias um trampolim para me lançar do mercado solapado de concorrência, sob forma de dinossauros e coronéis para me esgueirar entre eles. Eu tinha uma vantagem sobre todos: eu os conhecia muito bem e, para eles, eu era um desconhecido Davi, um Gulliver reduzido de notoriedade, um anão lunático, um sujeito póstumo. Certa vez, foi golpeado com um tapinha nas costas com os dizeres: “sua escola será o futuro”. Quem disse que um tapinha nas costas não traz em si maior violência que uma surra com muchaco? Logo pensei: “minha escola é o presente”.



[1] É uma referência a Monteiro Lobato, parafraseando Shakespeare e a Dinamarca.

sábado, fevereiro 13, 2016

Dengue: decifra-me, mas não me conclua, eu posso te surpreender.

O uso da frase da esfinge (“Decifra-me ou devoro-te”) apareceu em material distribuído pelo Ministério da Saúde, em 2010. Para contrapô-lo, invoquei, para o título acima escolhido, a frase da nossa preciosa Clarice Lispector. O que pretendo aqui é declarar que devemos deixar de fazer “mais do mesmo” para que realmente tenhamos indicadores para comemorar no que diz respeito à incidência da dengue no Brasil. Tenho acompanhado interessadamente a importância que a imprensa tem dado ao tema, particularmente no Estado de São Paulo. Por que não conseguimos melhorar esse quadro?
            Quando entrei, como biólogo, para a Vigilância Ambiental em Brasília, deparei-me com um recém recorde negativo no DF: os casos de 2010 tinham detonado qualquer estatística anterior. Devotei-me para tentar entender o porquê. Logo depois, passei a pesquisar cientificamente a situação, entrando no programa de mestrado em Bioética, da Universidade de Brasília. Minha base de estudo era os programas governamentais para o controle da dengue. Foram quatro: um em 1996 (PEAa), outro em 2001 (PIACD), outro em 2002 (PNCD) e o atual, que é de 2009 (DNPCED). Em minha dissertação, chequei se os objetivos principais desses programas foram cumpridos e cheguei a conclusão desanimadora: não foram. O óbvio parece estar nos fatos: a necessidade de um novo programa, a priori, significa o fracasso, ainda que parcial, do anterior. Apesar de novos estatutos para ação governamental os casos não pararam de aumentar:

            O último documento norteador das ações é o Diretrizes Nacionais para a Prevenção e Controle de Endemias da Dengue (DNPCED), publicitado em 2009. Nele, o objetivo principal é o de evitar óbitos. Vejamos: se compararmos os quatro anos anteriores ao programa e os quatro anos seguintes, percebe-se que o número de óbitos no Brasil após o programa foi mais que o dobro dos anos anteriores ao programa (1965 contra 864).


            Assim, embasado pelos fatos e não por elementos de discurso, insisti em procurar onde poderiam estar as falhas do governo, na tentativa de ajudar a seguir por caminhos mais concisos, financeiramente mais justos e ecologicamente mais corretos.  Aliando minha história de oral de vida e a análise minuciosa do DNPCED percebi três possíveis enganos estratégicos e/ou metodológicos: o modo de levantamento da população dos mosquitos, a eficácia do uso dos inseticidas e o papel dos gestores e dos agentes. Tentando ser breve, cheguei as outras conclusões de desalento – temos problemas em todos eles. Quando comparei o levantamento da população do mosquito transmissor (o Aedes aegypti) e a incidência da doença em Goiás  e no DF (apenas comparando os dados oficiais dos governos) percebi que em muitos municípios (ou regiões administrativas, no caso do DF) tidos como “sem risco” segundo o inquérito das larvas do vetor, estavam pululando de casos de dengue e vice-versa. Ora, isso mostra a fragilidade do LIRAa (o levantamento demográfico do mosquito via identificação das larvas nos depósitos) como “carta de navegação” para as ações do Estado (como o documento preconiza). Sobre a eficácia do inseticida, não foi difícil entender que além de caro, tóxico para o servidor, para a população e para o meio ambiente, seu uso é de resultado questionável. São tantas as variáveis para que o lançamento do veneno dê certo que é mais esperado que não dê. São necessários, entre outros, clima favorável, relevo favorável, horário favorável, ausência de barreiras naturais e artificiais, repetição sistemática e organizada, além de matar apenas os mosquitos adultos e que estejam voando no momento da aplicação. Para terminar, por meio de questionários que apliquei (devidamente autorizados pelo Comitê de Ética da Universidade de Brasília), pude constatar que os agentes e os gestores não cumprem muitas das determinações preconizadas pelo Ministério da Saúde, presentes no DNPCED como: reuniões intersetoriais, levantamento de dados, comunicação dos dados obtidos, relação com a comunidade em que atuam.
            Controlar o mosquito deve ser uma parte importante mas pode ser secundária no plano geral. A erradicação do mosquito parece não poder ser conseguida. Não precisamos de mais motivos para apresentar visando confirmar que é absoluta presunção de que eliminaremos pombos, baratas, ratos e mosquitos, até porque a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (DUBDH) ressalta em seu artigo 17, a necessidade da preservação da biodiversidade. Eles estão absolutamente ocupando um nicho criado por nós e nossas mudanças de hábitos poderão diminuir suas presenças mas elas permanecerão. Não somos controladores a tal ponto de quem deve ou não permanecer aqui. As políticas públicas para animais sinantrópicos sempre estiveram ortodoxamente afinada com o discurso químico, para mim, uma espécie de biofascismo. Esse modelo é alienante e pensa que essa resolução é única e óbvia. Não é. Além de ferir o conceito desenvolvido pelo filósofo alemão Hans Jonas, de responsabilidade com o futuro, ela parece estar a serviço de interesses pessoais, determinada por segmentos que apresentam algum conflito de interesses, e os maus resultados advêm de olhares significados dentro de uma ótica inquestionada. Precisamos olhar diferente para o problema da saúde e do meio ambiente como algo complexo, intersetorial, politizado e bioético.

domingo, abril 05, 2015

Por que acreditar que tudo está nos genes?



            Pau que nasce torto, nunca se endireita. Filho de peixe, peixinho é.
            Será?
            O comportamento humano é assunto de interesse da biologia, medicina,  filosofia, antropologia e psicologia. Em meus recentes mergulhos na neurociência, não pude evitar de deparar-me com a ideia de que a compreensão do comportamento é atributo exclusivo da  neurociência. Quando os neurocientistas são contrariados, as dúvidas são explicadas com a possibilidade: a falta da evidência não é a evidência da falta. Por exemplo, se uma pessoa qualquer perguntar: o que é o riso? O riso é um produto orgânico, como a lágrima? Ele está em alguma parte do nosso cérebro? Há o centro do riso? Hipocampo? Amígdala? Tálamo? Os neurocientistas “estritos” reagem: “talvez esteja escondido em algum giro não completamente estudado, ou esteja em alguma área já estudada e tenha ainda nos passado despercebidos. Alguém resolverá.” No livro do neurocientista Ramachandran, o recente “O que o cérebro tem para nos contar?”, ele trata de atacar as ciências humanas, em particular a filosofia e psicanálise (tendo como alvo principal, seu “criador”, Freud). Aliás essa tendência, tem sido comum a ponto de levar uma psicanalista contemporânea, Elisabeth Roudinesco a escrever o livro: “Freud -  mas por que tanto ódio?” e “Em defesa da psicanálise”.  Stephen Hawkins, celebrado no cinema e na festa do Oscar  (“A teoria de tudo” ), sentenciou: “a filosofia morreu.” O arquiinimigo autodeclarado das ciências humanas poderia ser David Stamos em seu “Evolução e os Grandes Temas – Sexo, Raça, Religião e outras questões”, um livro pra lá de perigoso. Ele ironiza o tempo todo o que é chamado de “construção social”. Em todos, uma bandeira: as ciências humanas não explicam nossa mente.
            Não estou certo disso.
            Como não disponho de muito tempo, divido um exemplo rápido. Em 1920, a expectativa de vida do portador de Síndrome de Down era de 10 anos de idade. Atualmente, essa expectativa está acima de 60 anos. E não é só uma questão de longevidade: é também de qualidade e inserção social. O que mudou? Foram apenas os avanços metodológicos e na compreensão da síndrome? Ou ainda: a síndrome por si só se atenuou? Ou podemos pensar: há outras variáveis, no entorno do comportamento social, antes desconsideradas ou subconsideradas, que dividem com a expressão gênica e os avanços médicos, o mérito da nova longevidade e de uma nova vida para os portadores?

            Não podemos mudar os genes, simples assim, como muitos sonharam (e ainda sonham). Mas podemos alterar de modo producente o meio social e permitir um novo comportamento humano, em busca da ética, do humanismo e da cultura. E para isso, precisamos de estudiosos e pensadores das ciências humanas. Eles são nossos pares; não nossos adversários.