domingo, abril 21, 2013

Eu também fui vítima da dengue




            Atrasado, li o jornal que assino. Entre outras superficialidades como de praxe, algo me chamou atenção. Um “artigo” com o sugestivo título “Eu fui vítima da dengue”.  Como essa é a tese do meu mestrado, tive a curiosidade de ler. Li. Quase vomitei (de novo) porque eu também passei recentemente por um quadro de dengue. Fiquei estarrecido com aquelas palavras.
            O início é prosaico. Trata o mosquito com arrogância natural da espécie humana: essa terrível mania de colocar as outras espécies abaixo de si. Duvida da capacidade de um “mosquito aparentemente frágil e insignificante”. A presunção humana é uma virtude avessa e quase inata, parece-me. Esse desrespeito quase-natural, produto da desinformação e do desconhecimento rege a sociedade alienada, materialista e disfuncional que a modernidade nos impõe. Se fosse um indígena, a referência seria outra. Essa visão foi derrubada no século XIX com a obra “A Origem das Espécies” do inglês Charles Darwin. Somos um ramo da árvore entre milhares de outros. Foi uma ferida narcisista que as pessoas ainda parecem não aceitar.
            Na sequência, o texto cita que as pessoas contaminadas foram “cuidadas pelo pessoal Vigilância Sanitária e do Ministério da Saúde”. Duvido. A Vigilância Sanitária não faz esse tipo de serviço. A Vigilância que vigia essas situações é a sempre esquecida Vigilância Ambiental. O desconhecimento talvez tenha feito que a autoria do texto tenha trocado os termos, mas ao trocar os termos comete uma injustiça irreparável. Quanto à interferência do Ministério da Saúde, devo dizer que a sorte ou prestígio os fizeram descer de seus saltos e ir para o mundo real dos fatos: nunca vi seus servidores na Fercal, Ponte Alta, Ceilândia, Vila Rabelo, entre outros logradouros.
            O que estava parcialmente condenável ficou então mais degenerado, mais indigesto. A autoria do texto afirma que “deveria lhes ser dado o poder de polícia e, sem dó nem piedade, prender o autor – agressor da natureza que tem coragem de deixar seu quintal e a sua vizinhança como deixa.” E prossegue: “Como pena, para não lotar as cadeias e prisões, ele e a família seriam obrigados a limpar aquela rua, retirar a sujeira nela descartada, até que ficasse impecável e decente”.  Bom, deixe eu suspirar um pouco, tomar um pouco de ar e retomar o raciocínio. O argumento apresentado é de tamanha infelicidade que agradeço por essa pessoa ser apenas colunista de jornal e não um gestor, de não me representar em lugar nenhum. Também, se o fosse, seria execrado pela opinião pública, Ministério Público, entre outros por sugerir: trabalho infantil, trabalho escravo, desobediência à constituição brasileira, cerceamento do direito do cidadão de ir e vir, etc. Gostaria inicialmente de provocar o leitor: será que as pessoas sujam a rua por que querem? Será mesmo? Ou será que a falta de educação, no sentido formal da palavra, é o problema? É fácil fazer um julgamento do outro tomando como base si mesmo, pessoa escolada, com dinheiro, que não “quebra” por comprar sacos de lixo. Mas trata-se de um erro óbvio para um país com tanta iniquidade como o nosso. Uma grande parcela de brasileiros não tem acesso à educação de qualidade mínima. Assim, muitos sequer leem. Outros não compreendem o problema de acumular lixo orgânico próximo de casa, morar em condições ruins, manter animais domésticos dentro de casa (como galinhas, por exemplo). Não porque não querem, mas porque não podem. Muitas dessas pessoas vivem à margem do conhecimento e não podem descobri-lo com suas forças internas. Cabe ao poder público entender essa geringonça e atuar de maneira eficaz, com outras armas. Deixemos a polícia no lugar dela. Isso não é um caso de polícia. Isso é um caso de governança. Não compreende o que faz e por isso vai ser presa? Essa é a solução mágica? Condenar mais uma vez o pobre? Palmas para essa grande saída!
            “Infelizmente, o brasileiro só funciona sob pressão”. Vamos virar o disco. Nosso povo está aprendendo pouco a pouco uma nova realidade. Mais uma vez, o agente de crescimento do indivíduo, de revelação da autonomia moral, intelectual e física está vindo aos poucos com a escolarização, o aumento de oportunidades, a conscientização política, sanitária e econômica. A educação é a baliza para as soluções. Chega de falar em prisão, multa e outras coerções. Primeiro, temos que buscar resolver a vulnerabilidade de nosso povo para que se encontrem em condições econômicas e educacionais dignas.
            No final do texto, são conclamadas as “instituições” para resolver o problemas: Polícia Civil, Polícia Militar e Bombeiros. Terão poder de quê? Farão o quê? Prenderão o mosquito?
Outra questão muito séria a respeito dessas pessoas, como essa que escreveu o texto, é a motivação que as leva a mudar sua rotina de escrever e falar sobre outros assuntos, muito distintos daqueles que estão acostumados. Como disse, assino o jornal e nunca havia percebido a dengue ali naquela coluna. Quando a pessoa ficou doente, o assunto apareceu. E não voltou. Lembro-me do caso de um apresentador de uma rede de tv que só falou da violência no Rio depois que teve seu Rolex roubado. Tem um programa semanal e nunca se ocupou de engajar na luta contra a violência. Quando sofreu a violência, usou sua influência com seus milhares de seguidores das redes sociais para expor sua fúria. Foi prontamente questionado pela fúria só agora revelada. Discurso vazio. Essa semana, episódio parecido com o vice-governador de São Paulo. Está há sei lá quantos meses no governo, mais de ano, e nunca veio a público explicar a violência na capital do Estado. Bastou ter a filha quase assaltada para pedir os holofotes e dizer que a situação está crítica. Digo a todos eles: perderam uma grande oportunidade de ficar calados e seguirem pacientemente na fila.
O problema da dengue é meu objeto de tese. A dengue não é resultado apenas do lixo acumulado. O problema da dengue não é problema só do médico, do mosquito, do hospital, da classe social, da vigilância ambiental. Essa visão tecnicista e condenatória da população não tem ajudado em nada. A saída para a dengue, caso a vacina não venha, será um complexo programa ambientalista, multi e transdisciplinar estou desenvolvendo, com alicerces em experiências positivas de outros colegas Brasil afora.
Agora: sejamos responsáveis. Precisamos de pessoas que promovam mudanças de forma democrática, dialogada, pessoas que se inteirem das informações para expor suas ideias. Não façam de seu espaço público uma lugar para expor uma opinião que deveria ser dada apenas para seus familiares e amigos. Lembro-me, para terminar, de uma passagem de Michel Foucault, filósofo e psicólogo, quando em uma entrevista, o jornalista insistiu para que respondesse uma pergunta. Foucault disse que tinha uma opinião pessoal sim sobre o assunto. Mas ela era pessoal. Não daria ela ali porque ela era tão importante quando a do entrevistador e a de todas as pessoas que estavam assistindo-nos. Disse que não usaria do local privilegiado de fala para fazer de uma opinião de um leigo, uma opinião de maior validade que a dos outros. Grande Foucault!
Fui!

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