O ENEM aponta na direção das melhores escolas?

Estamos mais uma vez às vésperas da divulgação do famoso ranking das escolas com base no desempenho no ENEM. Desde que esse formato de mensuração escolar entrou em voga, muito se diz a respeito do que ele realmente está revelando. Na última semana, li a coluna de um especialista, aparentemente observador externo, sobre o que estamos vivendo na educação brasileira: uma cópia do modelo espanhol de ensino. O texto abaixo foi retirado da Folha de São Paulo.

Tem um sujeito americano, meio caipira, que manda no mundo do vinho francês. Até 15 anos atrás, soaria risível. Robert Parker Jr., que nem gostava de vinho, achou que o sistema subjetivo que falava em gosto de lápis molhado e amora podre estava difícil demais. Fez a coisa americana: inventou uma pontuação. Hoje, ninguém manda como ele nesse ramo.


O problema é que apareceu o vinho "parkerizado", que manipula taninos e açúcar para ficar do jeitinho que o Parker gosta. O Enem, como o vestibular, é "parkerizado". Concluiu-se que é necessário um sistema de notas para distinguir alunos e escolas. Assim tudo fica mais fácil. E distorcido. Lembro dos processos de admissão quando resolvi fazer mestrado. Nos EUA, labutei para tirar boa nota nos exames e não fiz entrevista.

Na Universidade de Oxford, na Inglaterra, disseram-me que não havia exame e que precisava achar um professor que me quisesse como aluno! Foi o que fiz, e "entrei" porque um senhorzinho que me encontrou num pub simpatizou com minha tese. "Parkerizadas", as escolas se transvestem com boas notas, e isso é uma fraude intelectual.

Algumas das mais bem pontuadas fazem um funil danado dos dois lados, o de professores e o de alunos. Selecionam vetustamente (não é vestibulinho, mas é similar) os alunos para garantir material bom de prova. Do lado dos professores, fazem uma seleção direcionada. Depois, primam por simulados que visam exatamente treiná-los no que costuma cair nas provas.

Ora bolotas, assim qualquer um faz. É, aliás, um vexame que tirem nota 6 no Enem. Qualquer nota menor que 10, com esse preparo "parkerizado", é um fracasso. As escolas públicas, que não podem escolher alunos e professores, não podem concorrer com isso.

A solução está na modernidade: fazer com que alunos decorem fórmulas, datas e fatos é de uma bizantinice primorosa. As provas têm, urgentemente, de ser feitas com notebook à disposição. As questões devem se concentrar na capacidade de questionar, procurar e interpretar, abolindo de vez esse caminho emburrecedor da vestibulice.

Impera a preguiça institucional e a pressão anacrônica dos pais, resultando em soluções antigas e doentes.

Há muita vinha de qualidade Brasil afora, e certamente não está reservada às elites que procuram capital social e enquadramento nas escolas que fabricam garrafas para o Enem.

É vergonhoso fazer tanta preparação para algo que sequer tangencia o mundo do trabalho. Dessas uvas nativas poderia vir muito vinho de qualidade, com mesclas criativas e importantes. Deixemos o Parker para trás. Mirar nota, como sabemos, não é para francês -é para inglês ver.



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RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco') que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas. Escreve a cada 14 dias neste espaço.


















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