sábado, julho 17, 2010

Dengue



Assisti à secretária de saúde do Distrito Federal no lançamento da campanha de combate à dengue 2010/2011. Entre outros comentários (que não vou discuti-los aqui, até porque estamos em  ano eleitoral), escutei dela a história do que teria sido dito pelo então ministro da Saúde, Adib Jatene, eminente cardiologista brasileiro quando em discurso pensava em desafiar seus comandados: "derrotados por um  mosquito?". O que ele parece dizer é que o ser humano não poderia ser derrotado por um  invertebrado desqualificado, incapaz de ter consciência de que existe e desprovido de qualquer tecnologia. Cuidado que o pequeno Davi derrubou o gigante Golias com poucos recursos. Assusta-me um  pouco como as pessoas insistem  em  minimizar a capacidade de sobrevivência das outras espécies. Outro dia, escutei de um  médico: "o problema da dengue é que o mosquito é competente no que faz." Ora, escutei ali de novo um ar presunção humana sobre o meio ambiente e o que foi dito é de obviedade tão grande, tão óbvia quanto dizer que se tivermos uma doença então devemos estar doentes.
Decepções à parte, em minha modesta opinião, a questão epidemiológica da dengue passa por duas áreas da biologia: a evolução e a ecologia.
Sobre a evolução, vos digo: o Aedes é uma espécie que não pode e não será erradicada – como muita gente politicamente promete. Erradicar artrópodos é tarefa quase impossível. Se usarmos inseticidas pesada e insistentemente, o que faremos será selecionar formas resistentes e reduzir populações de outros insetos importantes, além  de contaminar pessoas, talvez superando as que morrem  de dengue. Outra ideia inaceitável é achar que o mosquito é alguém patético, decididamente uma forma de vida menor e desnecessária para o planeta. Podermos nos unir em  uma corrente mundial, canalizar esforços para essa ação ("erradicar o mosquito"), desviar milhões de outros projetos para esse, criar programas especiais em  detrimento de outros e fazer os Aedes serem dizimados como já tentamos com ratos, coelhos, pássaros, sapos, besouros, entre outros. Nosso ledo engano deriva da invencível concepção evolutiva lamarckista que colocava o ser humano como o máximo evolutivo. As pessoas ainda acreditam nisso. E menosprezam tudo que não seja "humano".
    Mande a ecologia entrar.
    O crescimento da doença no país e a permanência dela estão ligadas a questões ecológicas. É óbvio que estou sendo um pouco reducionista no pensamento mas não na direção do que fazer mais intensamente e prioritariamente. Algumas variáveis são incontroláveis como o índice pluviométrico local que favorece o vetor mas o comportamento social e governamental podem ser mudados.
A dengue é causada por um flavivírus, vírus cujos genes estão em uma molécula de RNA. Seu capsídeo é icosaédrico. Esses vírus não podem ser transmitidos de pessoa a pessoa, diretamente. A única forma de contaminação é por meio da picada das fêmeas do mosquito Aedes aegypti. O mosquito, por sua vez, tem metamorfose completa (são holometábolos) passando pelas formas de larva e pupa, ambas aquáticas. Temos de um a cinco dias para matar as larvas (são quatro estágios) e de dois a três dias para matar a pupa. Caso contrário, a pupa deriva um adulto que ainda fica "bobo" por quase uma hora para solidificar seu escudo de quitina e então voa para se alimentar e se acasalar. Depois que acasalam a fêmea procura o repasto sanguíneo para garantir a nutrição de sua prole. Então, finalmente coloca os ovos.
A fêmea põe seus ovos que podem sobreviver por 15 meses. Mesmo no seco. Isso é um problema (para nós).
Para ter alguma chance, melhor estudar o "adversário". O calcanhar de Aquiles do Aedes são seus estágios intermediários. Eles necessitam de água parada para sobreviverem. Água limpa (embora haja quem tenha identificado que nem sempre).
Evitar os criadouros – maternidades de água parada - é a meta. Assim reduziremos instantaneamente a infestação de novos pares voantes de mosquitos. Como reduzir os criadouros?
Visitamos novamente dois assuntos de extrema frequência no escopo da ecologia: a poluição e o desenvolvimento. A base para o exagero dos criadouros dos mosquitos somos nós mesmos, com os copinhos de café descartados, com os pneus descartados, com o desmazelo da ocupação humana e a insuficiência na gestão de tudo isso. Soluções? São muitas mas podem ser feitas, podem ser efetivas e, o mais importante, com resultados duradouros.
Política ambiental, esclarecimentos à população e fiscalização. Somos capazes de fazê-los?
Em Brasília, havia um plano. O estabelecimento de 33 ecopontos de destinação de resíduos que não fossem orgânicos. Áreas que receberiam o lixo, classificado e destinado rápida e corretamente. Os pneus, por exemplo, seriam transferidos para São Paulo onde são triturados e transformados em material que pode ser utilizado na construção civil. Essa parceria existe. Mas não basta. Ações intensivas de educação e de informação deveriam permanentemente atingir o povo, destacando de forma objetiva como fazer para se desfazer de seus resíduos sólidos, sinalizando a importância de um comportamento ecológico positivo. Ter como fazer a coisa certa e informados do porquê fazer, quem ainda insistisse em fazer a coisa errada seria advertido e talvez multado. É um pacto social amplo, democrático sim, político-educacional-econômico, que pode se transformar em exemplo a ser seguido em várias outras áreas, em outras situações. Eu acredito que somos capazes de vencer a indiferença geral, a moleza dos órgãos públicos e a inércia de parte da população que não acredita que o que veem pela TV não pode acontecer com eles próprios.

Posso dar outras sugestões de pesquisa?

  1. Interferir na razão sexual dos mosquitos. Procurar alguma forma de interferir na definição sexual da espécie;

  2. Intensificar a destruição dos ovos, o grande elo entre uma primavera e a outra, quando a doença ressurge em números alarmantes;

  3. Interferir geneticamente no mosquito ou no vírus para se tornaram mutuamente incompatíveis;

  4. Introduzir inimigos naturais (controle biológico) ou machos estéreis.

Dengue: muita gente erra porque não sabe. Muita gente erra mesmo sabendo. Muita gente morre porque ninguém faz nada.

2 comentários:

Cris (Aluna do Galois) disse...

Concordo em gênero e grau com o que você falou, Marcello. O que também me indigna deveras é a opinião de alguns religiosos de que Deus é do homem, os animais são "serviçais". Poxa, como podem não considerar que somos frutos de uma mesma "linhagem" que é a evolução?

Espécie humana, pare de olhar para o seu umbigo !

Daiane Gomes disse...

Boa tarde, achei de excelente bom gosto este site e as matérias publicadas, uma mais interessante que a outra. Gostaria de saber a fonte das questões publicadas aqui. É de sua autoria?
Muito obrigada..e meus parabéns pelo blog.