quinta-feira, setembro 24, 2009

O tubérculo de Scarlett



Estudar em escola pública tem as suas vantagens. Uma delas é na hora do lanche. É de graça. Bom pelo menos na minha época era assim. No auge da crise econômica lá em casa, em meados dos anos 80, minha mãe gentilmente insistia sobre a importância de aproveitar aquele momento singular entre os dois toques da sineta chamado recreio. Hora de aliviar o orçamento doméstico e entrar na democrática fila da merenda.




Estamos em 1939 mas na verdade o tempo é mais remoto: 1861. A história se passa em algum lugar da região sul dos Estados Unidos em plena recém-deflagrada Guerra da Secessão, a guerra civil americana. De um lado, o Sul aristrocrata, latifundiário e partidário imperativo da escravidão. Do outro, o norte industrializado, os intitulados ianques. Um ambiente devastador implantou-se sobre o território americano levando a quase 1 milhão de mortes durante o conflito (1861-1865). Em uma fazenda do futuro derrotado sulista, Scarlett O'Hara, mimada, apaixonada e apaixonante, inicia uma saga das mais belas da história do cinema. Gone with the wind (E o vento levou). Visita imperdível (apesar de durar mais de 4 horas...).




Um elenco marcante com Vivian Leigh (1913-1967), Clark Gable (1901-1960) e Hattie McDaniel (1895-1952), cenas inesquecíveis – como a do incêndio que torrou cenários igualmente importantes como o do primeiro King Kong (1933), o maior número de indicações para o Oscar (recebeu naturalmente o de melhor filme, sendo o primeiro filme colorido premiado na categoria), é, sem hiperbolizar, um filme histórico. De todas as cenas do filme, a mais tocante para mim é Scarlett retornando a Tara, a fazenda de seu pai. Lá, destruída pelos ianques, com a mãe morta e o pai louco, Scarlett não tem o que comer. Com o entardecer ao fundo, segurando o vestido rodado, cabelo em desalinho, ela diz que nunca mais passará fome enquanto viver, segurando nervosamente em uma das mãos um tubérculo, na desolada e arrasada terra outrora próspera. Fome.





No centro da cabeça, há um lugar. Ele se chama hipotálamo. No sangue, um mensageiro: a leptina. A regra é clara: quando você come acima do que precisa, nossa matriz energética estoca lipídio nos adipócitos. Os adipócitos avisam que estão bem abastecidos liberando a leptina. A leptina atua no hipotálamo cessando o apetite. Mutações no gene de três éxons e dois íntrons da leptina é uma das causas hereditárias de obesidade. Em jejum, os níveis de leptina aumentam e sentimos fome. A sensação da fome é determinada por outros peptídeos liberados pelo estômago e pelo intestino. Juntos, conseguimos dizer para nós mesmos que já comemos. Perdemos a fome. A condição para que sejam secretados é óbvia: barriga cheia.




Aqueles tempos de crise lá na casa da Dona Teresinha (minha mãe, amigos) fizeram da imagem de interpretada magistralmente por Vivian Leigh tocar mais fundo no meu imaginário e vi a promessa de nunca mais passar fome na vida, uma missão em comum, entre mim e Scarlett. Missão que venho cumprindo.

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