Vida artificial


Deus fez o homem e o homem fez a vida
    Em 1998, aquele anúncio parecia um exercício de petulância: um norte-americano dizia que iria sequenciar completamente o próprio genoma. Esse cidadão, chamado Craig Venter, enfrentava nada mais nada menos que um comboio de governos liderados pelo dos Estados Unidos, no consórcio chamado Projeto Genoma Humano (que começara em 1990). Em 2001, esse jogo estava empatado, criando visível desconforto na opinião pública americana visto que o orçamento do PGH era significativamente maior que o de Venter. Venter já dera mostras de sua capacidade quando em 1995 liderou a equipe que seqüenciou o primeiro genoma completo de um ser vivo, a bactéria Hemophilus influenza¹.
    E agora, Craig Venter surpreende mais uma vez a humanidade. Ele e sua equipe criaram uma bactéria, um ser vivo artificial na acepção da palavra porque a bactéria geneticamente não existe, ela foi por assim dizer inventada.
    O primeiro passo foi sequenciar o genoma (ou seja, o material genético) de uma bactéria da espécie Mycoplasma mycoides. Depois, passaram a manipulá-lo em um computador e com diversas informações obtidas com o tempo, formularam um genoma com dezenas de informações acrescidas, para funcionarem como uma marca d'água, sequências com combinação absolutamente inédita na natureza. A informação digitalizada foi sintetizada e inserida em uma célula de Mycoplasma capricolum que passou a ser controlada integralmente pelo novo material genético, inclusive replicando por bipartição. E surgiu uma nova espécie, totalmente inédita criada pela matrix, pelo devaneio das informações da poderosa biologia molecular.



 
As possibilidades a partir daqui são inúmeras. Venter provou que podemos sim inventar microrganismos. Esses microrganismos poderão factualmente ser gerados e reunir características que desejarmos. Poderemos manipular os seres vivos para fazerem coisas inacreditáveis e inconcebíveis para as formas naturais? Poderemos ter bactérias fazendo moléculas de interesse dos cientistas e/ou das comunidades? Poderemos gerar uma nova microbiota intestinal com maiores benefícios do que a atual? Podemos produzir organismos que reciclem substâncias ainda não-recicláveis, podemos produzir microrganismos produtores de combustível a partir de matérias-primas abundantes?
Podemos também produzir seres vivos letais para a humanidade? Esperamos que a história de Venter não repita a história de Enrico Fermi (no caso da bomba atômica) ou de Santos Dumont (no caso do uso dos aviões nas guerras).
Os filósofos adoraram. A mídia adorou. E Deus, o que está achando?

 
¹ Em 1977, Sanger sequenciara o genoma de um vírus bacteriófago.
   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Insetos e aracnídeos: uma confusão evitável

Lista de exercícios - biologia