terça-feira, abril 24, 2018

Homenagem a todos ex-alunos dos patronatos brasileiros


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Não duvide de alguém apaixonado [ou Homenagem a todos ex-alunos dos patronatos brasileiros]

Meu avô era padeiro.
Seu Alceu saía, faltavam muitas horas para sair a luz do sol. Entre a casa e o patronato, havia muitos quilômetros. Sem luz, a única diferença entre andar e se perder era a diferença tátil entre o asfalto e a terra. Usava os pés como olhos e o coração como bússola.
Uma vez, disseram-me que o pão do meu avô não era bom. Fiquei muito triste, raivoso. Fiquei com vontade de enfrentar todo mundo. Eu queria gritar para dizer que o pão do meu avô não era feito de trigo, de massa inerte, de forno e de tempo. O pão do meu avô era maravilhoso porque tinha ingredientes para além do pão, que servia aqueles rapazes, 99% deles negros, abandonados ou infratores, lotados no internato no meio da estrada, além do centro de Rio das Flores, longe dos seus pais, órfãos ou bandidados.
Meu avô percorria todos os dias aquela estrada, entre o piche e a Mata Atlântica, e depois contava para mim as histórias de seu trajeto, enquanto o Chacrinha soava na TV. Antes do Chacrinha, escutava os discos da Tia Cristina, onde as vozes de Clara Nunes e Mílton Nascimento cortavam o coração da gente de um modo que os Pablos, Anittas e Luans nunca entenderão.
Eu não entendia porque eles eram quase todos negros no Patronato, e porque viviam daquela forma, todos com a mesma roupa, feita de pano ruim, todos iguais.
Um dia fui jogar futebol contra eles e lembrei do meu avô, que me disse que “lá embaixo” [como ele se referia ao Rio de Janeiro, a capital] tinham saído muitos bons jogadores dos patronatos. Enquanto procurava entender tudo ali, jogava ali na lateral esquerda, contando com a vitória, como todo adolescente.
Perdemos o jogo. Mas ganhei muito mais.

Hoje, já que tudo faz sentido, tornei-me muito mais que o garoto às vezes pobre, que jogava contra os garotos do patronato. Garotos que precisavam do pão do meu avô, antes das aulas do dia.

Tornei-me professor e hoje, sou um apaixonado.
Não há outra paixão profissional, para mim, do tamanho da educação.
Vi tanta gente nesse meu percurso [quase 30 anos] falando de educação e não a experimentaram. Acham que podem falar dela profundamente porque foram estudantes, foram professores, foram diretores. Na verdade, nunca exerceram a educação, porque nunca a questionaram; eles sempre agiram alienadamente durante toda uma vida. E amanhã de manhã, servirão sua inutilidade social a milhões de crianças e adolescentes no nosso país.

Encontrei muita gente que quer ganhar dinheiro com educação a partir da aflição dos pais e das mães, principalmente das últimas. Acham que porque educaram em casa, sabem muito, sabem tudo. Porque agiram em um caso, estão autorizados para falar por todos os outros. Por que deram aula muito tempo, inevitavelmente sabem muito. Porque têm dinheiro e podem empresariar uma escola ou modelo educacional, podem falar sobre educação, podem contratar, demitir, funcionalizar professores, definir currículos, aplicar provas, pagar para o marketing fazer o diabo aparecer sem os chifres.

Enganam-se!!!!

Educação não é tarefa para aventureiros, para marinheiros de uma única viagem bem sucedida. Eu não embarcaria em um navio cujo almirante fez uma viagem única.  Nem de marinheiros que possuem muitas horas de navegação, mas nunca souberam explicar porque estão indo naquela direção. Somente foram.

Educação é fruto de muita transpiração, de muita leitura, de muita discussão, de muito chão de escola, de muitas disciplinas, interdisciplinas e transdisciplinas. Lidar com todos os tipos de alunos, do que aceita a regra, do que transgride, do que regride à regra, do que sequer soube o que é a regra, ou nunca a questionou.

Educação é uma vida dedicada, letrada, criticizada, politizada, vivida. Não é ato transitório, não é opinião, não é estudo de um único caso, não serve até que os filhos cresçam. Ultrapassa o limite do egoico e torna-se plasmada sua situação de vida, seu viver, seu acordar e seu dormir [e a insônia também]. Educação não é para um, é para todos. Se é para todos, não pode ser unicamente pensada para os seus. É para os nossos.
Educação é feita por gente que não se vê em outra maré, que não se encontra em outro barco.

Educação não é passageira.
Educação é paixão por todos alunos, independente da origem, do estado, da vulnerabilidade.
Educação é paixão assumidamente para poucos.

Educação é para:

LUÍS CARLOS DE FREITAS
KÁTIA CURADO
NEWTON DUARTE
DERMERVAL SAVIANI
ALICE CASIMIRO LOPES
SÍLVIO GALLO
MARCELO HÚNGARO
PATRÍCIA PEDERIVA
[entre outros]

O pão do meu avô era feito com muito mais que daquela massa de fermento biologicamente dominada, como o Acaçá de milho que Nana Caymmi magistralmente cantou.
A estrada que meu avô andava a pé todos os dias, antes que o sol reclamasse seu espaço, fez pão para muitos negros pobres; negros que eram vistos como a sobra, a raspa da moral da elite que não aceitava aqueles moleques no seio da sua sociedade totalizada de uma burguesia branca, que ainda acha que pode falar de qualquer assunto, como a educação.

Enquanto quem não sabe o que fala, fala sobre educação, nosso país não é; nem nunca será.

Ame a educação e se dedique a ela [estamos mais que abertos para adesões], ou se cale, ou aprenda a ouvir, dê o benefício de quem vive a educação, apaixonada e dedicadamente, falar. Ouça o marinheiro que viajou para todos os lugares do mundo e participou da decisão de ir. Ouçamos o amor transpirado.

Nunca duvide de alguém apaixonado.
Essa é a mais legítima forma de ser, em uma vida cuja verdade é uma tese de múltiplas teses, de muitas falas, e pouca resolução.

Muito obrigado, vô Alceu. O pão que alimentou aqueles moleques rejeitados, pretos e pobres, largados ali onde se chega apenas por aquela estrada sem luz, alimentou nossa família, entre eles, meu falecido pai. Só assim, estou aqui. Apaixonado. Eternamente apaixonado pela educação. A serviço da educação, até meus últimos dias no Planeta Azul.

[Dedico essa pequena fala a todos os egressos dos patronatos do Brasil, vítimas de um sistema pedagofascista, racista e infecundo que pouco transformou o país em tantos anos que tiveram a oportunidade e recursos para fazê-lo. Saibam que respeito todo os senhores muito, mas muito mais que a podridão escorial de pseudo-educadores que fazem da nossa educação esse ser desdentado, feio, magro, sem tempo para questionar o que são e para onde vão, que fabricam cidadãos que apenas compram, cagam, comem, cumprem regras que não criaram, e fogem da polícia, da dívida e da doença.]

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