terça-feira, abril 24, 2018

Das paredes de tijolo para outra paredes



A Reforma Psiquiátrica Brasileira caminhou na esteira de uma desinstitucionalização do trato da saúde mental no país (FURTADO E CAMPOS, 2005). Esse caminho, defendido em muitos países e cujo ancoramento fortemente percebe-se na obra de Michel Foucault lançou novos desafios cuja implementação ainda testemunhamos. Furtado e Campos (2005) chamam a atenção para as dimensões da saúde mental, aquela que é a da ordem do sujeito e a outra que é da ordem das “determinações sociais, políticas e ideológicas”. Sob o auspício de tantas orientações e territórios de disputa, reza ainda o estatuto oculto de uma geração de “especialistas” que recusam na prática uma nova ordem de encaminhamento do transtorno psiquiátrico com vistas a atingir uma reabilitação psicossocial protagonista e não ortopédica, aos moldes denunciados por Michel Foucault, em Vigiar e Punir (2014).
As instituições [a escola, por exemplo] e a grande indústria assumem o biopoder despótico e esclarecido formando um edifício que se mantém soerguido apesar dos avanços legais: não há lugar para a doença psiquiátrica. Montado em uma sociedade que ainda insiste em tornar o adolescente e a criança como não-sujeitos, o mundo real esquiva-se de avançar em uma direção de uma reabilitação verdadeiramente inclusiva, como apontado por Furtado e Campos (2005). Pairando sobre os documentos [que já são balzaquianos!], o cuidado em liberdade daqueles que apresentam sofrimento da doença mental, parece na verdade, dominado e soçobrado pelas paredes invisíveis desse biopoder e do olhar panóptico da sociedade. A draga de um mundo administrado que almeja que sejamos o que ele quer, parece dialogar com a ideia eugênica de um humanismo industrial e fabril, que deseja a formação de mão-de-obra qualificada tanto quanto alienada, determinista e instrumentalista [não questionadora da tecnologia e dos modos de produção] – como apontada por Feenberg (in Neder, 2010) - e recita a cartilha de um poder que não tem tempo para desperdiçar com o desvio pensante de alguns [seja derivado de uso de substâncias químicas, transtornos de personalidade, TDAH, depressão, ansiedade, pânico, fobias, manias, bipolaridade, espectro autista, etc.] produto de representações fantasmáticas do inconsciente. O vestibular, o emprego, o estágio, a startup, o intercâmbio, não admitem que o transtorno psiquiátrico possa ser admitido - chama-se meritocracia. Para os que ficam de fora, resta o não-lugar, a margem, o exílio no seio da polis. Essa "nova" ordem revela o novo tratamento, não mais cercado pelas paredes manicomiais de outrora; agora as paredes estão ressignificadas. Elas possuem o atributo da invisibilidade embora preenchidas pela argamassa introjetada de um sistema meritocrático acelerado, alienante e único, totalizante e autoconsciente, produzindo uma nova forma de encarceramento e de exclusão: o alijamento do mundo do capital e do mundo do trabalho.

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