sábado, março 24, 2018

A fábrica, a escola e a saúde mental

A fábrica, a escola e a saúde mental
[Tempos Modernos, Charles Chaplin (1936)]
[Uma história da indústria, do empreendimento individual, da humanidade em busca da felicidade.] [texto prefacial do filme]
Enquanto “Tempos Modernos” é apresentado, no fundo, a imagem permanente de um relógio. O relógio é o fundamento do indivíduo industrial. O relógio é o organizador escolar do aluno moderno.
Depois, o gênio de Chaplin mostra um bando de ovelhas em movimento; depois, homens, saindo com seus chapéus-panamá, aos bandos, do metrô. São ovelhas e homens, mas poderiam ser as crianças subindo a escadaria da escola, porque o sinal tocou. O relógio tem pressa.
Enquanto os homens se guiam para a fábrica, as ovelhas para o cocho, as crianças sentam na classe. O sistema ocupa seu tempo com quebra-cabeça e lendo Tarzan.
Na fábrica, Chaplin aperta duas porcas de ferro na placa de ferro. Sempre os mesmos movimentos. A esteira corre, o relógio corre, há apenas porcas para apertar, irreflexivamente. Não há tempo para o ócio, para a felicidade, para a crítica, para a disputa. O aluno vê a esteira do sistema sob forma do fluxo curricular e deve apertar a porca no ritmo do fluxo organizado. Não importam as disciplinas, as porcas serão as mesmas: atingir notas mínimas. O aluno aperta a porca fazendo suas provas, seus simulados, seus deveres de casa, no ritmo do relógio da parede da fábrica. Na comparação com a escola, os próprios pais introjetam o sistema fabril e cobram as notas e os deveres feitos, e entendem como sucesso, o filho que apertou as porcas.
Não há tempo para distrações. Qualquer distração, a camerização do sistema detectará tal insubordinação; o sistema chamará você para conversar, o sistema irá lhe ameaçar, o sistema tentará oferecer o seu pecado de sair dele. O sistema acha que não há nada fora dele, que não há outro modo de produzir.
No filme, para não perder tempo, uma máquina é apresentada para alimentar os operários. Quando tudo dá errado, o sistema diz “ela [a máquina] não é prática”, mostrando a relevância que o operário tem para o sistema, assim como o aluno é para a escola: coisa para produzir.
O sistema é introjetado pelo indivíduo. Assim, Chaplin quer apertar hidrantes, botões das roupas das senhoras, o nariz dos colegas. Os colegas nervosos atacam Chaplin, mas quando a esteira do sistema volta a funcionar, esquecem o sentimento e se voltam para a produção. O sistema é mais importante que o sentir.
No território da fábrica, todos os operários são ninguém, como se fossem alunos sentados cabeça baixa, copiando o dever do quadro, respondendo as questões da prova feita pelo sistema, confiando nele de que é assim que funciona.
Sem nunca ter visto o produto final de seu trabalho, sem pensar para quê e para quem está fazendo aquilo, a fábrica e a escola continuam a funcionar. O sistema agradece a compreensão e a docilidade de todos.
Chaplin só sai da fábrica para o hospício.
Cuidado, pais e mães.

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