quinta-feira, outubro 26, 2017

Liberdade e Hannah Arendt

O que é a liberdade?

            Parece que se trata de uma discussão póstuma. Insuflada de uma gama de variáveis, parece que a relativização de qualquer uma delas, sugere a impossibilidade de uma redução conceitual. Parece que somos livres por definição, definição essa que se mostra escorregadia, socraticamente insustentável. Sem a previsibilidade de todas as suas causas, não se assegura liberdade. Poderíamos tenta-la reduzir aos limites do intrapsíquico mas aí mergulharíamos em duas questões maiores. A primeira é de que a liberdade nunca seria “vista”, “exibida”, haja vista que não a teríamos no mundo das coisas, em território acusável pelo outro. Seria, para Hannah Arendt, uma liberdade apolítica. Outra questão, é que essa liberdade é frontalmente combatida, depois da obra de Freud, com o conceito de inconsciente e suas decorrências.
            Retomando para o plano político, seara de apresentação em Hannah Arendt, ela convida Kant para a discussão, usufruindo dele o conceito de razão prática, sua coalizão para o duelo entre o empirismo de Bacon e o racionalismo de Descartes. Hannah aponta que a razão intrínseca da política é a liberdade e que seu domínio de experiência é a ação.
            Mas e o totalitarismo? A força de subordinação das esferas da vida face à política totalitária, a negação de direitos à intimidade e à própria política parece desalinhar o par sinônimo política-liberdade, suscitando até sua diferença, sua incompatibilidade: a política pode castrar-nos de sua própria liberdade. Hannah apresenta outro argumento: “quanto menor o espaço político ocupado, não seria maior a liberdade?”
            A aconceituação da liberdade parece ainda mais provável quando “ouvimos” Hobbes, por exemplo. Hobbes acreditava na política como acordo para a paz e a liberdade como usufruto da liberação do medo. Parece por assim dizer que a idade Moderna divorciou a liberdade da política, que não pode nos prover da primeira e mais que isso ainda a ameaça.

            Hannah ainda administra outra discussão que a separação entre liberdade e livre-arbítrio. O livre-arbítrio seria da ordem de escolhas. Para além disso, Hannah abstrai a liberdade a partir de uma ação, ação essa que não se encontra na organização do intelecto e que não pode ser controlada nem premeditada pela vontade. Segundo ela, ela brotaria de algo inteiramente diverso; refere-se ainda que necessita de vontade e do eu mas transcende suas capacidades de previsibilidade de sua causa. Assim, ela defende que a liberdade não corresponde à deriva, ao movimento browniano mas a liberdade é o objeto transcendente impensável e não-diretivo do percurso que se dá a partir da vontade e do guarda-chuva do próprio intelecto.

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