quarta-feira, outubro 04, 2017

Kafka vai à escola: A metamorfose


Gregor Samsa é o aluno embrutecido. Um indivíduo que se transforma de humano em barata, subitamente, processa a fábula realista de Kafka, mas vai além. O fantástico trazido por Kafka permeia a crítica social de um tempo que pode ser ligado com o processo pedagógico: o cenário de estranhamento do aluno que revela seu papel, ou o seu não-papel. O ser baratal, coisificado, é a silhueta do aluno tradicional, o aluno escolar. A metamorfose é a revelação da ausência do sujeito. Já não era sujeito antes, a metamorfose apenas testemunha sua insignificância, prova sua renúncia de subjetividade. Resta para ele, ver sua irmã em atitude de esperança da contra-metamorfose, seu reencontro com o humano, que volte a ser caixeiro-viajante e admita para si a verdade dos outros: salvar a dívida da família, intento externo, uma vida não vivida pelo seu corpo. Esperança vã. Kafka pode ser explicado por Rancière. Quando Rancière aponta os caminhos da emancipação intelectual, quer reclamar o direito do indivíduo de assumir sua vontade e sua inteligência, e de serem respeitadas. O papel do mestre embrutecedor aniquila o sujeito, anula suas possibilidades e não o ensina, não o faz aprender, funcionaliza o indivíduo em sua máscara uniforme social: empreender para o sistema, não pensar por si. O mestre embrutecedor não emancipa. Gregor Samsa não emancipou. Plasmou-se por advento de seus mestres, determinados em manter a paixão primitiva pela desigualdade. Sem o toque da emancipação, Samsa aceita o infortúnio de seus familiares endividados e quando fantasticamente revelado, nem sequer roldana é mais. Sem presteza para o sistema, o nunca-sujeito, o baratal Samsa morre.

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