domingo, outubro 15, 2017

feliz dia dos professores (?)

A metamorfose
Tornei-me professor porque precisava de dinheiro. O mestrado na USP era uma incógnita e minha família não podia me custear, aliás minha família é que precisava ser custeada. Fui convidado por um grande amigo, um quase-irmão, para dar aulas na escola privada mais famosa de Brasília e logo perguntei quanto ganharia. Tinha então 22 anos. Fiz o teste e passei. Fui contratado. Dei muitas aulas, às vezes mais de 50 por semana. A aula era um ato motor, irreflexivo, era uma exposição calculada sob minha orientação interna, ausentando qualquer outro fator de momento, os alunos, por exemplo. Os alunos não importavam.
A aula importava.
Quando a aula passou a ser um ato mecânico, sobrou tempo no meu cérebro. Foi então que comecei a observar os alunos. Eu comecei a saber seus nomes, a reparar suas identificações, se cortavam o cabelo, se estavam sorridentes ou sisudos. Passei a sorrir mais, passei a demorar mais nos sorrisos, passei a receber sorrisos. Depois, passei a ganhar abraços e em retribuição, passei a dar abraços antes que eles fossem pedidos. A aula não começava antes que alguns abraços fossem dados, muitos bons-dias, muito deslocamento entre eles, muito sorriso. Deixei de chamar os alunos de alunos e passei a chamá-los de amigos.
A aula não importava mais.
Nunca mais dei aulas na minha vida.
Hoje, quando entro em sala, revejo amigos e celebro a amizade com eles. Quem me conhece, sabe que prefiro andar entre os alunos a ficar na sala dos professores. Odeio todas as reuniões com professores e amo ir aos eventos dos alunos. Os professores não sabem muito dos alunos. Os alunos sabem dos alunos. Eu quero saber dos alunos. Percebi que o único sentido da educação é o aluno. O resto pode (e deve) ser totalmente reformatado e ressignificado.
Alunos não precisam de aulas. Precisam de sorrisos.
Não precisam de ordens. Precisam de diálogo.
Não precisam de provas. Precisam ser ouvidos.
Não precisam provar nada. Precisam viver.
Para muitos, ser professor é um ofício. Penso que esse papel diz respeito apenas à receita federal, à justiça trabalhista, aos sindicatos arcaicos e ao complexo sistema escolar brasileiro: burocrático, escravista e improdutivo. Cheguei, graças às leituras de Carl Rogers, à conclusão que nunca ensinei ninguém. Os livros e a internet se bastam. Os alunos se bastam. Para mim, ser professor é outra coisa. Ser professor é um privilégio, uma paixão indescritível de assistir a mudança de seres humanos. Não há ofício aí. Só posso trocar sorrisos e abraços sinceros, o tempo todo.
Não há dia do professor, sem que todos os outros dias sejam dos alunos.
Agradeço a todos meus alunos, não por esse dia, mais por todos os últimos 26 anos. Sou um ser humano muito melhor hoje, graças a vocês.
15 de outubro de 2017

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