segunda-feira, outubro 02, 2017

AS MASSIFICAÇÕES CULTURAL E PEDAGÓGICA COMO CONSTRUÇÃO ESTÉTICA DO MUNDO PELA CLASSE DOMINANTE E A NEGAÇÃO DO SUJEITO: UMA BREVE ANÁLISE EM ADORNO, RANCIÈRE E NA FENOMENOLOGIA

AS MASSIFICAÇÕES CULTURAL E PEDAGÓGICA COMO CONSTRUÇÃO ESTÉTICA DO MUNDO PELA CLASSE DOMINANTE E A NEGAÇÃO DO SUJEITO: UMA BREVE ANÁLISE EM ADORNO, RANCIÈRE E NA FENOMENOLOGIA



RESUMO

A massificação cultural é um projeto equivalente ao da massificação do ensino. Em ambos os processos, o sujeito é reduzido, plasmado, silenciado, embrutecido. A armada do status quo revigora esse espírito anticriativo sob as mais diversas formas. Uma delas é com o professor explicador, ideia introduzida por Rancière, o professor que abole a distância que ele mesmo impõe quando se depara com o seu aluno. Nessa atitude de pretensa assimetria entre a sua vontade e a vontade do aluno, entre a sua inteligência e a inteligência do aluno, vassaliza o estudante, restringindo sua liberdade. Na tentativa de fazer compreender, essa intenção corrompe o movimento da razão, destrói a confiança no outro, expulsa a possibilidade de aquisição, impede a possibilidade de reorganização, oferecendo apenas a imagem técnica que é o simbolismo do caminho do outro. A massificação da cultura e do ensino é uma forma de violência e de prisão. A contra-armada pressupõe um antissistema, uma pedagogia negativa, suportada pela ideia de dialética negativa de Adorno e no sustentáculo da fenomenologia, defensora da experiência como superior ao conceito de verdade. Na impossibilidade de superioridade entre experiências e de seus significados, cabe ao professor estimular o aluno a aprender por si, igualando sua inteligência e sua vontade com a dele. O véu que se desvela, se desvela pela mão de seu próprio rosto encoberto. Assim, se emancipa o sujeito, assim o sujeito não morre. Essa é a única forma pela qual o sujeito pode enfrentar a visão una de estética, destituindo o caráter totalizante de mundo pretendida pela classe dominante.

Palavras-chaves: pedagogia, dialética negativa, estética, arte, massificação


Desenvolvimento

            A massificação cultural é um projeto equivalente ao da massificação do ensino. Em ambos os processos, o sujeito é reduzido, plasmado, silenciado, docilizado. Enquanto cardume, o sujeito atende ao chamado fascista, perde seu contorno, se apresenta disforme, aceita o consumo do que se impõe. Sem a detenção de sua própria zona de entendimento, replica, reproduz, copia, devolve em série o que recebeu em série. Desatento nessa despersonalização, o sujeito não se oficializa como sujeito, a arte não frutifica, o aluno não se reinventa, o espetáculo se resume.
            A armada do status quo revigora esse espírito anticriativo sob as mais diversas formas. Uma delas é com o professor explicador, o professor que abole a distância que ele mesmo impõe quando se depara com seu aluno. Nessa atitude de assimetria pretensa entre a sua vontade e a vontade do aluno, entre a sua inteligência e a inteligência do aluno, vassaliza o estudante, restringindo sua liberdade. “A incapacidade de compreender é a ficção estruturante da concepção explicadora do mundo” (RANCIÈRE, 1998, p.45). Na tentativa de se fazer compreender, essa intenção corrompe o movimento da razão, destrói a confiança no outro, expulsa a possibilidade de aquisição instrutiva ou experiencial, impede a possibilidade de reorganização, oferecendo apenas a imagem técnica que é o simbolismo do caminho do outro, uma caminho hetero-determinado. A massificação da cultura e do ensino é uma forma fascista de violência e de prisão.
            A cultura de massa, a pedagogia de massa, a finalização do sujeito foram preocupações marcantes em pensadores da fenomenologia e da dialética negativa.
            A fenomenologia reorganizou a síntese kantiana, já reestruturada por Hegel que potencializava e a conjunção experiência-entendimento-razão, remaquinando a “estranha máquina kantiana”. Empoderava o sujeito na medida que a ideia de razão única como verdade seria relativizada pela perspectiva fenomenológica.
           
Cerbone (2012) coloca:

Que eu me compreenda em termos de possibilidades, em vez de um conjunto de realidades, expressa a ideia de que meu ser, de acordo com Heidegger, ‘é um tema para mim’. O que eu sou não é, de modo algum, algo fixado, estabelecido ou determinado, mas algo para o qual, ou em termos do qual, eu devo continuamente me projetar (...) (CERBONE, 2012, p.86)

            Nessa chave de mundo, não há nada que seja uma unidade fixa, invariável, haja vista que há sempre uma ascensão do sujeito como protagonista referenciado a partir e para além de sua experiência. Detentor de sua própria razão, pode ser provocado pela razão do outro para a partir daí ressignificar sua experiência, mas ainda sim, terá agência direta sobre seu novo resultado.
            A ideia de uma dialética negativa é a ideia de uma defesa de um antissistema, a negação do sistema que se estabeleceu e vigora solidamente no espaço-das-coisas, como ideia geral de mundo (ADORNO, 2009). Sob esse prisma, Adorno e Horkheimer ensaiaram seu “Dialética do esclarecimento” assistindo de perto a massificação da cultura, uma vez que saíram da Europa e foram para os Estados Unidos, na costa oeste, a pouca distância dos estúdios de Hollywood (DUARTE, 2002).  Dali, a partir de Los Angeles, sentenciam que “o mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural” (ADORNO E HORKHEIMER, 1985, p. 104). Do púlpito da “maior das artes”, o cinema é o local de fala que se esparramou como lama de rejeitos sobre o rio das criatividades locais e individuais, deslocando os conceitos de estética para a estética industrial engendrada pela classe dominante forjada no capitalismo tardio, em um projeto de monopolização e mundialização das formas pretendidas. “A atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural” se consolidam uma vez que o mundo real se torna uma extensão das películas (ADORNO E HORKHEIMER, 1985, p. 104). A paralisia intelectual é produto da sucção do universo do filme ou das instruções do professor, o sujeito é anulado, a verve do palco não permite nenhuma dimensão do pensamento sobre a obra fílmica, a coreografia ou a aula, tudo se concentra na aniquilação do pensamento genuíno, cooptando o espectador, impedindo qualquer traço emancipatório, evitando o pensar-por-si (ADORNO E HORKHEIMER, 1985; RANCIÈRE, 2014).

            Enfrentar o descaminho da “ladainha do superespetáculo” (ADORNO E HORKHEIMER, 1985, p. 105) não é  pretensão para um indivíduo, que não se reconhece ativo de sua intelecção do mundo; antes disso, pode-se dizer que se despreza, se anula e não se oferece o autoconhecimento. Assim, caberia a atitude de reconstrução desse mundo pelos sujeitos, que a provocação desse despertar levasse à sua autocrítica e “ao se instalarem na quase, senão trágica, descoberta do seu pouco saber de si, [os homens] se fazem problemas a eles mesmos. Indagam. Respondem, e suas respostas os levam a novas perguntas” (FREIRE, 2012, p.154). Mas não consideram que não haja algum dispositivo que possa fazer o sujeito se reconciliar. Adorno admite que existe a possibilidade de uma “rememoração da natureza no sujeito” (DUARTE, 2002, p.33). É a maneira de impedir o triplo intento da classe dominante: as fossilizações da criatividade, do pensar-por-si e da criticidade.
            É nessa outra perspectiva que se emancipa, se pluraliza e se diverge. O véu da ignorância não é retirado pelo professor da dança, da arte, da escola ou da vida. Trata-se de um mito pedagógico. Cabe ao professor estimular o aluno a aprender por si, igualando sua a inteligência e sua vontade com a dele. O véu que se desvela, se desvela pela mão de seu próprio rosto encoberto. Assim, se emancipa o sujeito, assim o sujeito não morre. Essa é a única forma de enfrentamento à visão una de estética, a única forma de destituir o caráter totalizante de mundo pretendido pela classe dominante.


BIBLIOGRAFIA

ADORNO, T.W. Dialética negativa. Trad. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
ADORNO, T.W; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
CERBONE, D.R. Fenomenologia. Petrópolis: Vozes, 2012.
DUARTE, R. Adorno/Horkheimer & a dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
RANCIÈRE, J. O mestre ignorante. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
RANCIÈRE, J. O espectador emancipado. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014.


[1] Bacharel e licenciado em Ciências Biológicas, especialista em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica, especialista em Genética Humana, Mestre em Bioética, doutorando em Educação e especializando em Neuropsicologia. Professor de ensino básico e graduação há 25 anos.

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