A ESCOLA MORREU


Hoje em uma entrevista que dei, perguntaram-me:
qual o papel da escola?
Olhei para o lado, pesquisei no meu cérebro onde estava essa informação. Tratei de recorrer aos vinte e cinco anos de profissão, desde de março de 1992, quando comecei. Atravessei diversos lugares na minha anamnese; locais públicos e privados. Passei nas minhas lembranças por todos os níveis: ensino médio, ensino fundamental, graduação, pós-graduação. Relembrei muita coisa e nada que oferecesse uma resposta. Coloquei-me então no papel de aluno e tornei a fazer a busca encefálica. Diante de tanto vazio, de silêncio, enquanto a entrevistadora esperava, não pude mais hesitar em responder:
não há nada mais que a escola faça que não possa ser feito sem ela. A escola não tem mais o monopólio de sua função, seja ela qual for.
Sobreveio-me então a dúvida seguinte:
então para que (ou quem) ela existe mesmo?
Por que pagamos por ela?
Por que gastamos com ela?
Por que procuramos uma solução para ela há tanto tempo?
Por que nos submetemos a seu regime de horas, de restrições?
Formar homens educados? Homens corteses?
Se a escola existe para gerar homens corteses, como reza o moralismo do medievo, centrado no homem branco europeu, precisamos dizer para a escola que o mundo andou 800 anos.
Se o motivo do ensino médio, por exemplo, é "passar" no vestibular, por que os alunos não podem estudar como quiserem para ele, sem fazer qualquer prova anterior a ele, se assim for seu desejo? Por que algumas escolas não liberam seus alunos quando eles são aprovados na universidade?
Se o motivo não é esse, se a escola é formadora de cidadãos, por que os alunos não podem se preparar em casa, com seus pais, ou com tios, seus irmãos, na sua comunidade, na sua igreja, em trabalho voluntário, em escolas de dança, em teatros, em escolas de música, em estúdios de cinema, na fazenda, na praça, na natureza, no esporte, em pequenos grupos, em projetos coletivos, em cursos livres? Ou em qualquer combinação entre as possibilidades anteriores?
Poderia até ser na escola, mas por que ser obrigado a estar nela? A obrigação da escola não mudou o Brasil de patamar. Encaremos os fatos.
Obrigar conteúdos, não colocou o Brasil sob nenhum destaque, sob nenhuma melhora contundente. Pelo contrário.
Os sindicatos não conseguiram melhorar o nível do professor brasileiro. Pensam que o debate se resume aos valores. Os sindicatos não contribuíram para nenhuma garantia de salário, de crescimento profissional. Em Brasília, há professores que ganham 17 reais por aula. No Rio, os salários estão atrasados. Faltam professores. Concursos realizados não chamam os aprovados. Faltam ventiladores em sala. Falta papel. Professores estão afastados aos montes por doença ou por desmotivação.
As universidades licenciam pessoas, mas não entregam professores.
Se a educação prescinde da escola, por que pagar por ela, seja por tributos, seja diretamente?
Não precisamos de alunos em escolas.
Não precisamos de livros didáticos.
Não precisamos de uniforme.
Não precisamos de provas.
Precisamos de brasileiros honestos e comprometidos, de uma moçada motivada, de gente esclarecida, de solidariedade, de inovadores, de pessoas críticas, que pensem por si, que cuidem de si, que se equilibrem nas dúvidas, que possam usufruir da sua saúde mental, precisamos de um país mais igual e mais justo.
A escola teve sua chance.
A escola morreu.
Mas a educação vai renascer.
Plural, empoderadora e transformadora.

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