domingo, novembro 27, 2016

Outro dia li, sobre a crise dos 40 anos. Na reportagem, o jornalista colocava que há um relativo montante de pessoas que trocam funções a partir dessa idade, trabalhando menos, ganhando menos, todavia fazendo mais e mais apaixonadamente. No meu caso, o jornalista parece estar certo. Foi assim comigo. Passei anos da minha vida sendo torturado por uma rotina de muitas aulas por semana, repetindo assuntos de maneira similar, torneando a verdade de forma teórica e cheia de erudição. Aguentando um sistema, seus paladinos e seus seguidores revestidos de toda autocracia e remotismo, surtei. Não dava para renunciar à minha indignação: algo estava errado no Reino das Águas Claras! [1]
            Essa sensação libertadora veio com os livros. Por isso, realmente, sou um leitor contumaz. Leio simultaneamente vários livros em atitude quase maníaca. Eles me libertaram, descortinaram a razão e a emoção. Foi então que entendi: quase tudo estava errado.
            Munido de impaciência e revolta, revoltei-me primeiro tacitamente contra mim. Não conseguia mais dar as mesmas aulas de sempre. Não conseguia ensinar o que já havia ensinado. Não da mesma forma. Queria fazer alguma coisa diferente. Depois de duas graduações (bacharel e licenciado) e uma especialização na área biológica, decidi ir fazer mestrado em uma área interdisciplinar: a bioética. Receptáculo de discussões provindas da antropologia, medicina, filosofia, sociologia, direito, que se poderia esperar de mim? Um choque de ordem, uma saraivada de visões, uma compreensão de disciplinaridade reversa, diversa, inversa da realidade dos fatos. Esse curso colocou aquele demônio postado no meu outro ombro, sussurrando o outro impulso reclamado por Nietzsche. Ali, minha pedagogia nunca mais foi a mesma.
            Quando voltei para sala de aula, encontrei na minha frente a minha obra incompleta e meu desafio eterno: meus alunos. Passei a olhar para eles com olhos vermelhos, advento do ódio-fúria-tristeza. Não deles, mas do sistema.
            Quando cheguei em casa, e passei a olhar meus três filhos, senti o sofrimento de cada um deles.
            A escola brasileira está paralisada. Precisamos mudar. Não sou o primeiro, não sou o único, não serei o último. José Pacheco e a Escola da Ponte inspirou mudanças, o projeto Âncora, a pedagogia Waldorf, quero me juntar a eles. À princípio, quero um lugar para colocar minhas ideias em prática. Em segundo lugar, não quero um lugar só para minha ideia. Quero andar e quero que minha ideia não seja minha, desejo que ela seja deformada, cada vez que ela se fizer necessária. Quero que minha ideia seja provisória para aqueles que desejam mudança e que seja definitiva para os que não a desejam.
            Quando descobri essa descoberta, percebi que ali era o primeiro dia do resto da minha vida. Não podia mas voltar a viver meus vinte e poucos anos de pedagogia tradicional. Tinha de revirar os textos, anotar as experiências e me capacitar além do inatismo das ideias e do autodidatismo em ebulição. Fiz das economias um trampolim para me lançar do mercado solapado de concorrência, sob forma de dinossauros e coronéis para me esgueirar entre eles. Eu tinha uma vantagem sobre todos: eu os conhecia muito bem e, para eles, eu era um desconhecido Davi, um Gulliver reduzido de notoriedade, um anão lunático, um sujeito póstumo. Certa vez, foi golpeado com um tapinha nas costas com os dizeres: “sua escola será o futuro”. Quem disse que um tapinha nas costas não traz em si maior violência que uma surra com muchaco? Logo pensei: “minha escola é o presente”.



[1] É uma referência a Monteiro Lobato, parafraseando Shakespeare e a Dinamarca.

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